6.2.06

O Jardim




O Jardim Soares dos Reis foi, desde que me conheço, a par, talvez, do Jardim do Morro, o mais emblemático jardim de Gaia. Situa-se entre o topo da Rua Marquês de Sá da Bandeira e o início da Rua Soares dos Reis. Funcionou durante muitos anos como uma referência da cidade sendo, embora humilde, um local de passeio e diversão aprazível para adultos e crianças.
Teve também durante muito tempo os cuidados permanentes de uma equipa de jardineiros que o mantinham saudável. Cuidavam das flores e das árvores, cortavam e tratavam a relva, limpavam os lagos e os passeios. O Jardim era um centro. Uma plataforma de distribuição dos corpos e das máquinas que circulavam em torno do seu eixo para os quatro pontos cardeais.
A sua destruição foi um processo longo mas calculado. Começou pela genial ideia, provavelmente de alguém ligado ao Parque Biológico de Gaia, de esventrar o Jardim para instalar um novo sistema de rega que, segundo informações que pude obter, se destinava a um melhor aproveitamento das águas. Curiosamente, depois de esventrado e em posse do seu novo sistema vascular, o Jardim definhou imparavelmente, transformando-se numa sombra do que fora, pálido, seco e abandonado.
Acto contínuo, a Câmara Municipal dá início às obras que viriam a por fim à circulação em torno do Jardim, interrompendo o trânsito junto à entrada nascente da Escola António Sérgio, construindo aí um parque de automóveis e desviando o trânsito para o lado poente. O resultado foi o desaparecimento da Rotunda/Jardim, substituída por um circuito incompreensível em torno dos muros da Escola Secundária, e a consequente “desabituação” da centralidade anterior. Qualquer coisa como “vamos pô-los a dar a volta lá em baixo para ver se eles se esquecem do Jardim”.
Coisa extraordinária que revela o cuidado com que estes autarcas que temos gerem o dinheiro público, é que, poucos meses passados, este novo parque de automóveis é pura e simplesmente destruído, na sequência da intervenção demolidora que o Jardim agora sofre. A antiga Rotunda Jardim não regressou, no entanto, dado que o lado poente está tapado, circulando o trânsito pela Rua Artur Rangel e as pessoas pelo meio da estrada.
Este foi, em traços gerais e da forma que eu melhor pude descrever, a estratégia utilizada pela Câmara de Gaia para paulatinamente destruir o simbolismo do espaço em causa, afastando-o da vista das pessoas, para depois o afastar do coração.
Acresce a isto que já em intervenções anteriores, nomeadamente a que foi feita durante longos meses, se não mesmo anos, para renovar cinco ou seis tanques em cascata, houve relatos que testemunhavam o aparecimento de importantes vestígios das lutas entre liberais e absolutistas no século XIX, nomeadamente de armas que teria sido enterradas neste local e cujo paradeiro é hoje desconhecido.
Entretanto, com o início das obras que rasgarão o solo até ao Corte Inglês, na Avenida da República, onde até há pouco tempo existia um mítico e secular Pinheiro Manso, ao fundo da Rua D. Pedro V, plantado para comemorar a vitória dos liberais sobre os absolutistas, com o início das obras, dizia, descobriram-se no sub-solo vestígios de construções antigas de inegável valor patrimonial. Eu confesso que não sei distinguir uma edificação Celta de um galinheiro, mas a informação que veiculo foi-me transmitida por um jornalista que me assegurou que o IPPAR se limitou a catalogar e ordenou que prosseguisse o festim.
Aquilo que aqui faço, que fiz quando contactei o próprio IPPAR e o Ministério Público, é o meu dever como cidadão. Só isso. Nenhum fetiche especial me atrai em vestígios arqueológicos, embora também nenhuma simpatia me ligue, antes pelo contrário, ás Construtoras que vivem de sugar o sangue às cidades.
O velho busto da República de que cuidarei quando for tempo, se assim o merecer, foi por outros guardado todos estes anos com a têmpera do corpo. Muitas vezes também com a da alma. Não foi comprado à pressa em nenhuma loja dos trezentos.

3 Comentários:

Blogger Afonso disse...

Este páis está pejado de sanguessugas com nomes como Corte Ingles, todas elas com o sobrenome S.A..Isso todos sabemos, agora a destruição do nosso património é inadmissivel.
A tua denuncia é louvável e eu subscrevo-a.

6/2/06 21:28  
Anonymous Anónimo disse...

Hoje (10-2-06) no Público:
«Obras no Jardim de Soares dos Reis aprovadas em Gaia sem construções à superfície
Andréia Azevedo Soares
Câmara de Gaia aprovou criação de parque subterrâneo, mas o complexo comercial previsto para a zona ficou de fora
do documento

A construção de um parque automóvel no subsolo do Jardim de Soares dos Reis foi ontem aprovada pela Câmara de Gaia, só que com a condição de que ali não seria erguido à superfície qualquer edifício. É que os vereadores da oposição pediram a alteração da proposta inicial, que previa um equipamento "destinado a comércio e serviço, com uma configuração e volumetria contidas" para tornar a área verde mais "atractiva" para "o recreio e o repouso" - uma definição "muito vaga" na opinião do vereador socialista Barbosa Ribeiro, que afirmou ao PÚBLICO a sua "estranheza" ao perceber que o documento não definia a área de implantação do futuro equipamento.
Barbosa Ribeiro garante que jamais teria votado favoravelmente se o ponto 8, aquele que diz respeito à construção de um pequeno centro comercial no jardim, não fosse ontem removido do documento final. "Sempre estivemos de acordo com a construção do parque, mas nunca tínhamos detectado antes esta ideia de um mini-shopping - chamemos-lhe assim - no meio do jardim. Ora, nós somos absolutamente contra qualquer construção acima do solo naquele local", defende o socialista.
Apesar da eliminação do tal ponto 8, o documento não convenceu a vereadora comunista Ilda Figueiredo, a única integrante do executivo a votar contra a proposta. "O Jardim de Soares dos Reis é um dos poucos jardins que temos na zona central do concelho. Praticamente não tempos zonas verdes e, esta, que já tem um valor simbólico, devia ser salvaguardada. É uma dor de alma para mim ver que este espaço poderá ser fortemente prejudicado", justifica a vereadora. Na sua opinião, mesmo sem construção à superfície, a simples criação de um estacionamento subterrâneo já implica um impacte ambiental.
Barbosa Ribeiro, contudo, refere ao PÚBLICO que os futuros 250 lugares de parqueamento são tão precisos ali como "o pão para a boca". Isto sem falar na "urgente conclusão do IC23", que terá um efeito positivo "à escala regional".
Recorde-se que as obras de ampliação do jardim abrirão caminho para o remate do último troço do IC23, compreendido entre o nó da Barrosa e a Avenida da República. Esta via, também conhecida como Via de Cintura Interna de Gaia, deverá estar concluída no próximo mês de Novembro. Ilda Figueiredo refuta o argumento da escassez de parques públicos, uma vez que um hotel inaugurado recentemente nas imediações supre esta necessidade. A proposta levada ontem à reunião camarária delibera a cedência de um terreno com 2331 metros quadrados para a construção do parque, cujo concurso deverá ser lançado em breve. A empresa que vier a explorar o negócio terá uma concessão de meio século, bem mais do que o dobro do período oferecido nos concursos anteriores.
De acordo com o documento elaborado pela Direcção Municipal da Administração Geral, esta foi a única forma de tornar este investimento "atractivo", uma vez que a empreitada nunca terá sido adjudicada por falta de interessados. "De acordo com estudos económicos dos concorrentes, [o dinheiro] só é recuperado a longo prazo e nunca num período de vinte anos", refere a proposta aprovada ontem.»

7/2/06 08:09  
Anonymous Anónimo disse...

É pena que as pessoas comentem a cerca do jardim e façam disso notícias de blog antes de saberem o produto final... Enfim, só mesmo em Potual.

2/6/07 01:27  

Enviar um comentário

<< Home